Sim. Como mulher parda, já vivenciei diversas situações marcadas por discriminação e vieses inconscientes. Algumas delas parecem “pequenas” para quem nunca passou, mas acumuladas ao longo do tempo mostram como esses preconceitos estão enraizados no cotidiano.
Já fui “conferida” por seguranças após compras, precisei esvaziar a bolsa ou lidar com sensores de loja com defeito como se fosse minha culpa. Em bancos, fui chamada a atenção por estar ao telefone — enquanto outras pessoas faziam o mesmo sem nenhuma advertência. Em contextos acadêmicos e profissionais, já associaram minha formação à entrada por cotas, mesmo eu tendo feito vestibular em ampla concorrência. Também já presumiram que, por ser parda, minha qualificação fosse limitada ou “surpreendente”: há quem se espante por eu ser nutricionista ou doutora, como se não correspondesse ao que imaginam para esses lugares.
Lembro de um episódio em que, ao comentar que iria palestrar em um evento, ouvi de alguém, com um ar de surpresa e certo desprezo: “Ah, então a doutora é você?”. Pequenos gestos e expressões assim carregam muito mais do que curiosidade — revelam o quanto estereótipos e expectativas distorcidas moldam a forma como somos vistas e tratadas.
Essas experiências me lembram, todos os dias, que combater vieses inconscientes não é apenas reconhecer que eles existem, mas questionar as estruturas que os sustentam e aprender a agir de forma diferente diante deles.